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30 julho 2017

Jesus: Bíblico e Histórico

por H. Thiesen 

JESUS BÍBLICO

Jesus é a figura central do cristianismo. Para a maioria dos cristãos ele é a encarnação de Deus, o "Filho de Deus", que teria sido enviado à Terra para salvar a humanidade. Acreditam que foi crucificado, morto, desceu à mansão dos mortos e ressuscitou ao terceiro dia (na Páscoa). Para os adeptos do islamismo, Jesus é conhecido no idioma árabe como Isa, Ibn Maryam ("Jesus, filho de Maria"). Os muçulmanos tratam-no como um grande profeta e aguardam seu retorno antes do Juízo Final. Alguns segmentos do judaísmo o consideram um profeta, outros um apóstata. A Bíblia é umas das principais fontes de informação sobre ele. 
Embora tenha pregado apenas em regiões próximas de onde nasceu, a província romana da Judéia, sua influência difundiu-se enormemente ao longo dos séculos após a sua morte. Ele pode ser considerado como uma das figuras centrais da cultura ocidental. 
Grande parte do que é conhecido sobre a vida e os ensinamentos de Jesus é contado pelos Evangelhos canônicos: Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, pertencentes ao Novo Testamento da Bíblia e adotados oficialmente pela Igreja Católica, ainda no período de formação da religião e também, pelos Evangelhos Apócrifos, textos que não fazem parte da Bíblia e que não são adotados como forma de leitura pela Igreja, mas que apresentam também muitos relatos relacionados a Jesus. 
Esses Evangelhos narram os fatos mais importantes da vida de Jesus. Os Atos dos Apóstolos contam um pouco do que sucedeu nos 30 anos seguintes. As Epístolas (ou cartas) de Paulo também citam fatos sobre Jesus. Notícias não-cristãs de Jesus e do tempo em que ele viveu encontram-se nos escritos de Josefo,  historiador judaico-romano, que nasceu no ano 37 d.C.; nos regiistros de Plínio, o Moço, que escreveu por volta do ano 112; nos relatos de Tácito, que escreveu por volta de 117; e nos de Suetônio, que escreveu por volta do ano 120. 
Há duas apresentações nos Evangelhos sobre a genealogia de Jesus. Uma delas está logo no começo do livro de Mateus (Mateus 1:1-17) e se refere à linhagem real de Jesus por intermédio de José, apresentando-o como descendente do Rei Davi. A outra encontra-se registrada por Lucas (Lucas 3:23-38) e fala da linhagem de Maria, que também descende de Davi. 
Mateus menciona sinteticamente um total de 46 antepassados que teriam vivido até uns dois mil anos antes de Jesus, começando por Abraão. Em seu relato, o apóstolo cita não somente heróis da fé, mas também menciona os nomes das mulheres estrangeiras que fizeram parte da genealogia tanto de Jesus quanto de Davi, que no caso foram Rute, Raabe e Tamar. Também não omite os nomes dos perversos Manassés e Abias, ou de pessoas que não alcançaram destaque nas Escrituras judaicas. Divide então a genealogia de Jesus em três grupos de catorze gerações: de Abraão até Davi, de Davi até o cativeiro babilônico, ocorrido em 586 a.C., e do exílio judaico até Jesus. 
Lucas, por sua vez, aborda a genealogia de Jesus a partir de sua mãe, retrocedendo continuamente até  Adão, talvez com o objetivo de mostrar o lado humano de Jesus. E, superando Mateus, Lucas fornece um número maior de antepassados de Jesus. 
De acordo com o relato de Lucas, na época do rei Herodes o sacerdote Zacarias, esposo de Isabel — ambos já de idade avançada —, recebeu a promessa do nascimento de João Batista através do anjo Gabriel. 
No sexto mês da gestação de Isabel, o mesmo anjo Gabriel aparece a Maria na cidade de Nazaré, a qual era virgem e noiva de José, e anuncia que ela viria a conceber do Espírito Santo e que daria ao seu filho o nome de Jesus. Mateus traz a informação de que José, ao saber que sua noiva estava grávida, não teria compreendido inicialmente que Maria recebera a missão de conceber o Messias e se afastou dela. Mas em sonho, um anjo o revelou a vontade de Deus, e aceitando-a, recebeu Maria como esposa. 
Segundo Mateus, o imperador Otávio Augusto teria promovido um recenseamento de todos os habitantes do Império, tendo estes que se alistar em suas respectivas cidades. José, por ser da cidade de Belém, teria levado Maria até esta cidade. Chegando ao local de destino, por não terem encontrado hospedagem, Jesus nasce em uma manjedoura. Segundo Lucas, os pastores da região, avisados por um anjo, vieram até o local do nascimento de Jesus. 
Completados os oito dias que determinava a tradição judaica, Jesus foi apresentado ao templo por sua família para ser circuncidado, quando foi abençoado por Simeão e Ana. 
Segundo o relato do evangelista Mateus, Jesus teria recebido a visita dos magos do oriente, os quais, segundo a tradição natalina, seriam três reis da Pérsia. Os magos teriam chegado a Jerusalém seguindo a trajetória de uma estrela que anunciaria a vinda do Messias ao mundo. E, ao encontrarem Jesus numa casa com Maria, adoraram-lhe e ofertaram ouro, incenso e mirra representando, respectivamente, a sua realeza, a sua divindade e a sua imortalidade. Por causa desta visita Herodes teria se decidido a matar aquele que lhe iria tomar o trono. Tal notícia teria chegado a José, que então fogiu com Maria e o menino para o Egito. Jesus e sua família teriam permanecido no Egito até a morte de Herodes, quando então José, após ser avisado por um anjo em seus sonhos, retorna para a cidade de Nazaré. 
Pouco sabem os historiadores sobre a infância de Jesus. Conforme o Evangelho de Mateus, Jesus teria passado o começo de sua infância no Egito até a morte do rei Herodes, que queria matá-lo. 
Em virtude da lacuna deixada pelos Evangelhos Canônicos, o pouco que se sabe da infância de Jesus provém de um relato sobre sua vida dos cinco aos doze anos, feita por Tomé, filósofo israelita do século I, conhecido como "A Infância do Senhor Jesus", também denominado como o Evangelho do Pseudo-Tomé, um antigo manuscrito apócrifo escrito em Siríaco. Porém é conveniente salientar que tais fontes têm sua autenticidade contestada, e em alguns casos é notória a influência do pensamento de grupos religiosos dos século II ao IV, diversos das raízes tradicionais cristãs. 
Em umas das poucas referências canônicas à juventude de Jesus, Lucas diz que, aos 12 anos, ele foi com os pais de Nazaré a Jerusalém, para a festa de Pessach, a Páscoa judaica, e lá surpreendeu os doutores do Templo pela facilidade com que aprendia os ensinos, e por suas perguntas intrigantes. 
Todos os três Evangelhos sinóticos descrevem o batismo de Jesus por João Batista, e este evento é descrito pelos eruditos bíblicos como o início do ministério público de Jesus. De acordo com as fontes canônicas, Jesus foi para o rio Jordão onde João Batista estava pregando e batizando as pessoas. 
Mateus descreve que João estava hesitante em atender o pedido de Jesus para ser batizado, alegando que ele é quem deveria ser batizado por Jesus. Mas Jesus insistiu, "Consente agora; porque assim nos convém cumprir toda a justiça." (Mateus 3:15). Depois que Jesus foi batizado e saiu da água, Marcos afirma que Jesus "viu os céus se abrirem, e o Espírito, qual pomba, a descer sobre ele. e ouviu-se dos céus esta voz: Tu és meu Filho amado; em ti me comprazo." (Marcos 1:10–11). O Evangelho de João não descreve o batismo e nem se refere a João como "o Batista" mas ele atesta que Jesus é aquele sobre quem João tinha pregado — o Filho de Deus. 
Após o seu batismo, Jesus foi levado para o deserto por Deus, onde jejuou durante quarenta dias e quarenta noites. Durante esse tempo, o diabo lhe apareceu e o tentou por três vezes. Em cada uma das vezes, Jesus rejeitou as tentações respondendo com uma citação das escrituras. Em seguida o diabo se foi e os anjos vieram para cuidar de Jesus. 
Os evangelhos narram que Jesus, o messias, veio para "dar a sua vida em favor de muitos" e "anunciar as boas novas do reino de Deus".Durante o seu ministério, é dito que Jesus fez vários milagres, como andar sobre a água, transformar água em vinho, várias curas, exorcismos e ressuscitação de mortos (como Lázaro). 
O evangelho de João descreve três Pessachs durante o ministério de Jesus, e isso implica em dizer que Jesus pregou por pelo menos dois anos e um mês, apesar de algumas interpretações dos evangelhos sinóticos sugerirem um período de apenas um ano. Jesus desenvolveu seu ministério principalmente na Galiléia, tendo feito de Cafarnaum uma de suas bases evangelísticas e se deslocando várias vezes a Tiberíades pelo Mar da Galiléia. Esteve também em cidades como Samaria, na Judéia e sobretudo em Jerusalém logo antes de sua crucificação. Esteve em outros lugares de Israel, chegando a passar brevemente por Tiro e por Sidom, cidades da Fenícia. 
Em suas pregações, Jesus anunciava o reino de Deus e afirmava ser ele o próprio Filho de Deus. Também afirmava ter o poder de perdoar pecados. 
De acordo com os evangelhos sinóticos, Jesus levou três dos seus apóstolos — Pedro, João e Tiago — a um monte para orar. Enquanto lá estavam, Jesus foi transfigurado diante deles. Segundo o relato do evangelista Lucas, seu rosto brilhava como o sol e as suas roupas resplandeciam, então Elias e Moisés apareceram e conversavam com ele. Uma nuvem brilhante os cercou, e uma voz vinda do céu disse: "Este é o meu Filho amado, de quem me comprazo, a ele ouvi". 
Os evangelhos também afirmam que até o final de seu ministério, Jesus começou a alertar seus discípulos de sua morte e ressurreição futura. 
Segundo os quatro evangelhos, Jesus foi com seus seguidores a Jerusalém para celebrar ali a festa da páscoa. Ele entrou na cidade no lombo de um jumento. Foi recebido por uma multidão, que o aclamou como "filho de Davi". Nos evangelhos de Lucas e João, também é chamado de rei. 
Segundo Lucas, alguns dos fariseus, ouvindo o clamor da multidão dos discípulos, chegaram a pedir a Jesus que os repreendesse. Jesus então responde aos fariseus dizendo: "Se eles se calarem, as próprias pedras clamarão" (Lucas 19:40). 
Segundo os sinóticos, Jesus celebrou a páscoa com seus apóstolos — evento chamado pela tradição cristã de "A Última Ceia". Durante a comemoração, Jesus predisse que seria traído por um dos seus apóstolos, Judas Iscariotes. Ao servir o pão, ele disse: "Tomai e comei, este é o meu corpo", logo após, pegou um cálice e disse: "bebei todos, este é o meu sangue, o sangue da nova aliança, que será derramado para a remissão dos pecados". 
O Evangelho segundo João oferece maiores detalhes sobre os momentos da última ceia entre os capítulos 13 e 17, relatando o momento em que Jesus lavou os pés dos discípulos com água, os diálogos com os apóstolos, os últimos ensinamentos que transmitiu antes de morrer e a oração sacerdotal. 
Mais tarde, na mesma noite, segundo os sinóticos, Jesus teria ido para o jardim de Getsêmani, na encosta do monte das Oliveiras, em frente ao Templo, para orar. Três discípulos — Pedro, Tiago e João — faziam-lhe companhia. 
Judas havia realmente traído Jesus, e o entregou aos sacerdotes e aos anciãos de Jerusalém, que pretendiam prendê-lo, por trinta moedas de prata. 
Acompanhado por um grupo de homens armados, Judas chegou ao jardim enquanto Jesus orava, para prendê-lo. Ao beijá-lo na face, revelou a identidade de Jesus e este foi preso. Por parte de seus seguidores houve um princípio de resistência, mas depois todos se dipersaram e fugiram. 
Os soldados levaram Jesus para a casa do Sumo Sacerdote. A lei judaica não permitia que o Sinédrio, a suprema corte judaica, se reunisse durante o Pessach e condenasse um homem à morte durante a noite. Jesus foi acusado primeiramente de ameaçar destruir o templo, mas as testemunhas entraram em desacordo. Depois, perguntaram a Jesus se ele era o Messias, o Filho de Deus e rei dos judeus. Jesus respondeu que era, e foi então acusado de blasfemar ao dizer-se Deus. 
Após isso, os líderes judeus levaram Jesus à presença de Pôncio Pilatos, que então governava a província romana da Judéia. Acusavam-no de estar traindo Roma ao dizer-se rei dos judeus. Como Jesus era galileu, Pilatos enviou-o a Herodes Antipas — filho de Herodes, o Grande — que governava a Galiléia. Lucas conta que Herodes zombou de Jesus, vestindo-o com um manto real, e devolveu-o a Pilatos. 
Era de praxe os governantes romanos libertarem um prisioneiro judeu por ocasião do Pessach. Pilatos expôs Jesus e um assassino condenado, de nome Barrabás, na escadaria do palácio, e pediu à multidão que escolhesse qual dos dois deveria ser posto em liberdade. A multidão voltou-se contra Jesus e escolheu Barrabás. Pilatos condenou então Jesus a morrer na cruz. A crucificação era uma forma comum de execução romana, aplicada, em geral, aos criminosos de classes inferiores. 
Jesus foi vestido com um manto vermelho, puseram-lhe na cabeça uma coroa de espinhos e na mão uma vara de bambu. Os soldados romanos zombavam dele dizendo: "Salve o Rei dos Judeus"[72]. A seguir, espancaram-no e cuspiram nele. Forçaram-no a carregar a própria cruz, até um lugar chamado Gólgota. Ao vê-lo perder as forças, ordenaram a um homem, de nome Simão Cireneu, que tomasse da cruz e a carregasse durante parte do caminho. 
Conduzido para fora da cidade, Jesus foi pregado na cruz pelos soldados romanos. João conta que escreveram no alto da cruz a frase latina "Iesus Nazarenus Rex Iudeorum". Puseram a cruz de Jesus entre as de dois ladrões[73][nota 36]. Antes de morrer, Jesus exclamou: "Elí, Elí, lemá sabactani" que traduzido seria "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Mateus 27:46). Depois de três horas, Jesus morreu. José de Arimatéia e Nicodemos depuseram o seu corpo num túmulo recém-aberto, e o fecharam com uma pedra. 
Os Evangelhos contam que, no domingo de manhã, Maria Madalena foi bem cedo ao túmulo de Jesus, onde encontrou a pedra fora do lugar e o sepulcro vazio. Depois disso, Jesus apareceu a ela e a Simão Pedro. Dois discípulos viram-no na estrada de Emaús. 
Os Evangelhos dizem que os onze apóstolos fiéis encontraram-se com ele, primeiro em Jerusalém e depois na Galiléia onde chegou a ser visto por algumas centenas de pessoas. Porém, é o relato de Mateus que mais oferece detalhes sobre os acontecimentos que envolveram o momento da ressurreição. 
Segundo o Evangelho de Mateus, a ressurreição de Jesus teria sido precedida de um grande terremoto em razão da remoção da pedra que estava na entrada do sepulcro: 
- E eis que houve um grande terremoto; porque um anjo do Senhor desceu do céu, chegou-se, removeu a pedra e assentou-se sobre ela. O seu aspecto era como um relâmpago, e a sua veste, alva como a neve. E os guardas tremeram espavoridos e ficaram como se estivessem mortos. (Mateus, 28:2-4 
Nesta mesma fonte histórica, isto é, no Evangelho de Mateus, é informado também que os líderes judeus da época teriam subornado os guardas para que contassem uma versão diferente, ou seja, que os discípulos teriam levado o corpo de Jesus enquanto os vigias estivessem dormindo 
Além dos quatro Evangelhos e do livro de Atos dos Apóstolos, há outras fontes que falam da ressurreição de Jesus. Uma delas, também encontrada no Novo Testamento bíblico, seria um breve relato de Paulo nos versos de 3 a 8 do capítulo 15 em sua primeira epístola aos coríntios, escrita por volta do ano 55 da era cristã, onde o apóstolo menciona duas outras aparições de Jesus após a sua ressurreição, não registradas nos Evangelhos. Numa delas, Jesus teria sido visto por mais de quinhentas pessoas. Na outra ocasião, teria aparecido ao seu parente Tiago, o qual, após esta experiência, teria se tornado um seguidor e líder da Igreja de Jerusalém, escrevendo ainda um dos livros do Novo Testamento. 
A ascensão de Jesus é relatada nos Evangelhos de Marcos e de Lucas, além de constar no começo do livro de Atos dos Apóstolos, o qual também foi escrito por Lucas. 
Em Atos, Lucas narra que Jesus, após ressuscitar, apareceu durante quarenta dias aos apóstolos, passando-lhes ensinamentos e confirmando que receberiam o Espírito Santo. Prossegue o evangelista informando que, após esses dias, Jesus foi elevado às alturas até ser encoberto por uma nuvem. 
Marcos, em seu resumido Evangelho, apenas comenta que Jesus, depois de ter falado aos seus discípulos, foi recebido nos céus e se assentou à direita de Deus. É Lucas quem dá mais detalhes sobre esse momento, informando ter sido em Betânia que Jesus se despediu de seus discípulos, abençoando-os enquanto era elevado para o céu (Lucas 24:50-52). 
Por sua vez, em Atos, o seu segundo livro, Lucas relata que, durante a ascensão de Jesus, os discípulos permaneceram olhando para o céu até que tiveram a visão de dois anjos que lhe indagaram sobre aquela atitude, os quais teriam proferido as seguintes palavras: 
Varões galileus, por que estais olhando para as alturas? Este Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir — Atos, 1:11 
Diferente da ocasião da dramática morte de Jesus na cruz, Lucas diz que os discípulos não ficaram entristecidos com a aparente separação ocorrida na ascensão, mas retornaram felizes para Jerusalém. 
Já nos Evangelhos escritos pelos apóstolos Mateus e João, não há nenhuma descrição sobre a ascensão de Jesus. Em Mateus, por exemplo, o texto termina na segunda parte do seu último verso com a frase de que Jesus permanecerá todos os dias com os seus discípulos até o fim do mundo (Mateus 28:20). 
Mesmo depois da ascensão, as obras que compõem o Novo Testamento bíblico trazem outros relatos de aparições de Jesus, como ocorre na conversão de Saulo e também na visão de João quando o apóstolo é arrebatado aos céus durante sua prisão em Patmos e recebe a missão de escrever o Apocalipse. 


JESUS HISTÓRICO

Naquela época vivia Jesus, homem sábio, de excelente conduta e virtude reconhecida. Muitos judeus e homens de outras nações converteram-se em seus discípulos. Pilatos ordenou que fosse crucificado e morto, mas aqueles que foram seus discípulos não voltaram atrás e afirmaram que ele lhes havia aparecido três dias após sua crucificação: estava vivo. Talvez ele fosse o Messias sobre o qual os profetas anunciaram coisas maravilhosas", trecho de "Antiguidades Judaicas", de Flavio Josefo, primeiro historiador judeu, ano 95 d.C. 
Nenhum outro debate permaneceu durante tanto tempo em voga quanto os que dizem respeito a Jesus de Nazaré. Personagem controverso e questionado por alguns, Jesus permanece como fonte de estudos para pessoas interessadas em sua mensagem espiritual, enquanto outros procuram saber mais sobre a influência que exerceu sobre um elevado número de pessoas na Palestina. Para os Cristãos, ele é o Messias, salvador da humanidade. Já para os muçulmanos, um grande profeta. Enquanto isso, um outro contingente acredita que toda sua pregação não passa de um mito criado por fanáticos religiosos. 
Em meio à essas discussões, arqueólogos, teólogos e historiadores buscam encontrar vestígios concretos da época em que Jesus viveu para conhecer mais sobre seus costumes e saber mais sobre o contexto da região. No atual momento das pesquisas, já não se questiona mais a existência de Jesus. Agora, resta saber o que ele, de fato, fazia, como se relacionava com as pessoas e a importância que teve no cenário da Judéia no primeiro século. 
"Não é preciso comprovar a existência de Jesus arqueologicamente, pois existem várias evidências históricas. Além da literatura cristã primitiva temos testemunhos do Talmude, um dos textos sagrados do judaísmo, e de Josefo, o primeiro historiador judeu. Do ponto de vista histórico, é mais do que suficiente", explica o teólogo da UMESP (Universidade Metodista de São Paulo), Gabriele Cornelli. "A arqueologia serve para descobrir qual era o contexto econômico, social, financeiro e agrícola da Galiléia. Descobrir, por exemplo, quantas pessoas moravam na região, qual era a ocupação econômica principal e coisas do tipo, para colocar a figura de Jesus no seu berço." 
A busca pelo Cristo da história, não somente o apresentado pela religião, tem mostrado que grande parte do que está apontado na Bíblia tem encontrado reflexo na arqueologia. Um ponto comprovado, por exemplo, é o status financeiro da região, bem como a atividade de Jesus e José, descritos como marceneiros pela Bíblia. 
"Nessas pesquisas, foi possível descobrir que a Galiléia era uma região pobre e rural. Mas que atravessava um momento de forte expansão urbanística. Portanto, era preciso muita mão de obra", relata Cornelli. "Por conseqüência, de marceneiros. Assim, a informação de que a família de Jesus fosse de marceneiros no interior procede do ponto de vista da migração de trabalhadores da construção." 
Outra questão em que se avançou bastante é na relação política entre romanos e judeus à época. Assim, a crise política apontada no polêmico filme "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson. Na obra, Pilatos se vê indeciso entre atender às exigências de Caifás, o sumo sacerdote, ou libertar Jesus, em quem não vê culpa. Essa divisão é sustentada por estudos que apontam a Judéia como uma região politicamente instável e tida como um provável berço de insurreições contra o domínio de César. Desta forma, negar o clamor por crucificação poderia significar a explosão de uma guerra civil, uma vez que a população estava dividida. 
"Vemos na história romana alguns indícios de que a Judéia sempre foi vista como uma região repleta de rebeldes, dispostos a promover uma insurreição a qualquer momento. Todas as províncias romanas tinham o direito de ter um rei próprio, mas Jerusalém e a Judéia perdem essa condição e sofrem intervenção através de um procurador romano. Pilatos foi um desses", detalha o teólogo da Unasp (Centro Universitário Adventista de São Paulo), Rodrigo Pereira da Silva. "Nesse aspecto, faz muito sentido a visão do Mel Gibson de que Pilatos temia uma guerra civil. E era provável que isso acontecesse mesmo." 


A Paixão de Cristo 

Compreendendo melhor o contexto histórico, os pesquisadores têm avançado em eventos considerados mais importantes, como a Paixão de Cristo. Embora ainda muito contestado, algumas descobertas têm servido para esclarecer determinados pontos da crucificação e morte de Jesus de Nazaré. Atualmente já se sabe que, ao contrário do que indicava a lei da época, os romanos abriam algumas exceções para que criminosos condenados à morte por crucificação pudessem ser sepultados por suas famílias. Isso acontecia, principalmente, no caso de famílias ricas (vale lembrar que, segundo a bíblia, foi José de Arimatéia, um rico senador, que solicitou a Pilatos o corpo de Jesus - Marcos 15:43). 
Essas confirmações foram fortemente reforçadas em 1968. Após a Guerra dos Seis Dias, foi encontrada uma caixa mortuária de um jovem que teria sido crucificado. "Nesta caixa de pedra estava gravado o nome ´Iohanan, bar Hagagol` (João, filho de Hagagol). Nesse achado, um dos ossos do calcanhar tinha um cravo romano atravessado nele. É o único corpo de alguém crucificado que se encontrou até hoje, porque os demais os romanos jogavam em lixões, pois não tinham direito a sepultamento digno. Esse foi uma das exceções", relata Silva. Essa descoberta também apontou alterações na forma como se imaginava a crucificação, pois demonstrou que o cravo não era transpassado no peito do pé, e sim na lateral do calcanhar. 
Os estudos apontaram também os rituais de sepultamento dos judeus do primeiro século. Os mortos não eram sepultados imediatamente. Após seu falecimento, eram lavados, envoltos em um lençol e colocados em uma caverna, onde permaneciam durante anos. "Depois desse período, a pedra era removida, tiravam-se os ossos da pessoa, colocavam em caixas de pedra e elas eram colocadas em uma parede, para economia de espaço. O sepultamento, propriamente dito, era a remoção dos ossos da caverna", explica Silva. O relato da ressurreição de Jesus (e também a de Lázaro) diz respeito a esta fase da caverna. 
Ainda assim, alguns pesquisadores contestam os detalhes da crucificação alegando que algumas contradições não permitem que se julgue completamente verdadeiro o martírio. Um fator bastante contestado, por exemplo, é o fato de o julgamento ter sido realizado durante a noite, o que era proibido pelo governo romano. Outra questão é que, segundo o Torá, ninguém poderia ser sacrificado antes da Páscoa. 
"Alguns se apegam esses detalhes contra a historicidade do julgamento de Jesus. Mas se isso procedesse, teríamos que anular centenas e centenas de julgamentos que sabemos que não foram justos. Há uma série de julgamentos, o de Sócrates, por exemplo, em que foram quebrados vários direitos dos condenados. De fato, houve muita ilegalidade no julgamento de Jesus, mas isso não desmente que aquilo aconteceu", rechaça Silva, que também é curador do Museu Brasileiro de Arqueologia Bíblica, localizado no interior de São Paulo, próximo à cidade de Campinas. 


Fé e razão 

A busca de pesquisadores pela história real da bíblia pouco tem a ver, no entanto, com a fé - ou a ausência dela - dos mesmos. Em geral, os arqueólogos e historiadores não pretendem comprovar, ou contestar, a Bíblia. Sua intenção é compreender o mundo atual e os atores que o conduziram a esta condição. "Existem muitas pessoas que falam besteira sobre isso. Se deixam conduzir simplesmente pela questão da fé. Se você acredita na salvação, ok. Mas os estudos histórico-científicos não têm nada a ver com fé", diz Cornelli. 
No entanto, é difícil afirmar que os dois fatores são necessariamente exclusivos. "É bom ressaltar que a arqueologia não tem como pressuposto provar a bíblia. Este é um livro que demanda fé e fala de coisas sobrenaturais. Não consigo provar, por exemplo, que Jesus andou sobre as águas. Mas consigo, pelos estudos, confirmar ou desmentir os fatos históricos que ela conta", diz Silva. "A religião é fé. Mas isso também demanda o lado racional. As religiões têm sido desacreditadas por diversas razões. Posso ser racional, trabalhar com método científico, e, com mais certeza, crer no que está escrito na Bíblia e acreditar que ela é a palavra de Deus." 


Documentos comprovam existência histórica de Jesus 

Além de toda a literatura produzida por seguidores, como os 27 livros do Novo Testamento, documentação produzida por historiadores e governantes contemporâneos atestam a historicidade da existência e missão de Jesus Cristo. 
O historiador José Flávio (37-97 d.C.), nascido em Jerusalém, conheceu a primitiva comunidade cristã e, como pertencente à nobreza sacerdotal judaica, ocupou-se criticamente dos seguidores de Jesus. Em sua obra Antigüidades Judaicas, ele afirma que,
 "...neste período viveu Jesus, homem sábio (se é possível chamá-lo de homem). Ele fez obras maravilhosas. Ele atraiu a sí muitos judeus e pagãos. E quando, pelas acusações dos nossos homens de prestígio, Pilatos o condenou à crucificação, aqueles que o tinham amado não o abandonaram. Ainda hoje não desapareceu o gênero dos que dele têm o nome de cristãos" (XVIII 3,3).
Plínio, o moço, escreveu ao imperador Trajano no ano 112 para saber como se comportar em relação aos cristãos. Em sua carta explica:
"É meu costume, meu senhor, referir a ti tudo aquilo acerca do qual tenho dúvidas... Nunca presenciei a julgamento contra os cristãos... Eles admitem que toda sua culpa ou erro consiste nisso: que usam se reunir num dia marcado antes da alvorada, para cantar hino a Cristo como Deus... Parecia-me um caso sobre o qual devo te consultar, sobretudo pelo número dos acusados... De fato, muitos de toda idade, condição e sexo, são chamados em juízo e o serão. O contágio desta superstição invadiu não somente as cidades, mas também o interior; parece-me que ainda se possa fazer alguma coisa para parar e corrigir... " (Ep. X, 96).
O procurador da Judéia, Públius Lêntulus, dirigiu carta ao Imperador Tiberius César no ano 32, provavelmente a pedido desse, apresentando um retrato falado de Jesus.
''Existe nos nossos tempos um homem, o qual vive atualmente, de grandes virtudes, chamado Jesus, que pelo povo é inculcado profeta da verdade e os seus discípulos dizem que é filho de Deus, criador do Céu e da Terra e de todas as coisas que nela se acham e que nela tenham estado; em verdade, cada dia se ouvem coisas maravilhosas desse Jesus; ressuscita os mortos, cura os enfermos; em uma só palavra: é um homem de justa estatura e é muito belo no aspecto. Há tanta majestade no rosto, que aqueles que o vêem são forçados a amá-lo ou a temê-lo. Tem os cabelos da cor da amêndoa bem madura, distendidos até às orelhas e das orelhas até às espáduas, são da cor da terra, porém mais reluzentes. Tem no meio da sua fronte uma linha separando os cabelos, na forma em uso nos Nazarenos; o seu rosto é cheio, o aspecto é muito sereno, nenhuma ruga ou mancha se vê em sua face de uma cor moderada; o nariz e a boca são irrepreensíveis. A barba é espessa, mas semelhante aos cabelos, não muito longa, mas separada pelo meio; seu olhar é muito especioso e grave; tem os olhos graciosos e claros; o que surpreende é que resplandecem no seu rosto como os raios do sol, porém ninguém pode olhar fixo o seu semblante, porque quando resplende, apavora, e quando ameniza faz chorar; faz-se amar e é alegre com gravidade. Diz-se que nunca ninguém o viu rir, mas, antes, chorar. Tem os braços e as mãos muito belos; na palestra contenta muito, mas o faz raramente e, quando dele alguém se aproxima, verifica que é muito modesto na presença e na pessoa. É o mais belo homem que se possa imaginar, muito semelhante à sua mãe, a qual é de uma rara beleza; não se tendo jamais visto, por estas partes, uma donzela tão bela... De letras, faz-se admirar de toda a cidade de Jerusalém; ele sabe todas as ciências e nunca estudou nada. Ele caminha descalço e sem coisa alguma na cabeça. Muitos se riem, vendo-o assim, porém em sua presença, falando com ele, tremem e admiram. Dizem que um tal homem nunca fora ouvido por estas partes. Em verdade, segundo me dizem os hebreus não se ouviram, jamais, tais conselhos, de grande doutrina, como ensina este Jesus; muitos judeus o têm como Divino e muitos me querelam, afirmando que é contra a lei de tua Majestade. Diz-se que este Jesus nunca fez mal a quem quer que seja, mas, ao contrário, aqueles que o conhecem e com ele têm praticado, afirmam ter dele recebido grandes benefícios e saúde. 

02 outubro 2015

HISTÓRIA DAS RELIGIÕES: A Inquisição

Trechos do livro A Caminho da Luz 
(Emmanuel - Psicografia F.C. Xavier)

Muito pouco valeram as lições do bem, diante do mal triunfante, porque em 1231 o Tribunal da Inquisição estava consolidado com Gregório IX.  Esse instituto, ironicamente, nesse tempo não condenava os supostos culpados diretamente à morte - pena benéfica e consoladora em face dos martírios infligidos aos que lhe caíssem nos calabouços -, mas podia aplicar todos os suplícios imagináveis.

        A repressão das "heresias" foi o pretexto de sua consolidação na Europa, tornando-se o flagelo e a desdita do mundo inteiro.  Longo período de sombras invadiu os departamentos da atividade humana.  A penumbra dos templos era teatro de cenas amargas e sacrílegas. Crimes tenebrosos foram perpetrados ao pé dos altares, em nome dAquele que é amor, perdão e misericórdia.  A instituição sinistra da Igreja ia cobrir a estrada evolutiva do homem com um sudário de trevas espessas.
 Há quem tente justificar esses longos séculos de sombra pelos hábitos e concepções daquele tempo. 
Mas, a verdade é que o progresso das criaturas poderia dispensar esse mecanismo de crimes monstruosos.  Por isso, nos débitos romanos pesam essas responsabilidades tão tremendas quão dolorosas.
        A Inquisição foi obra direta do papado, e cada personalidade, como cada instituição, tem o seu processo de contas na Justiça Divina.  Eis por que não podemos justificar a existência desse tribunal espantoso, cuja ação criminosa e perversa entravou a evolução da Humanidade por mais de seis longos séculos.

A Inquisição foi um tribunal da Igreja Católica medieval instituido para procurar e processar heréticos. O termo é aplicado para a Instituição em si, a qual era episcopal ou papal, regional ou local. Tremendamente severo em seus procedimentos, a Inquisição foi amparada durante a Idade Média recorrendo às práticas bíblicas e pelas palavras de Santo Agostinho, o qual tinha interpretado “Lucas 14:23” como endossando o uso da força contra os heréticos. 
Santo Agostinho de Hipona (354-430), padre e um dos iminentes doutores da Igreja Católica ocidental. Filho de Santa Mônica, nasceu em Tagasta, Numídia, hoje Argélia. Inspirado no tratado filosófico, Hortensius, de Cícero, converteu-se em ardoroso pesquisador da verdade e aderiu ao Maniqueísmo. Em Milão, conheceu Santo Ambrósio que o converteu ao cristianismo. Agostinho voltou ao norte da África, foi ordenado sacerdote e, mais tarde, consagrado bispo de Hipona. Combateu a heresia maniqueista, desenvolvendo nessa época, as doutrinas do pecado original, graça divina, soberania divina e predestinação. Os aspectos institucionais de suas doutrinas foram especialmente proveitosos para a Igreja Católica Apostólica Romana. 
Problemas com seitas semelhantes aos dos Albigenses, conhecida como Heresia Social Cátara, no começo do século XII conduziu à Inquisição Episcopal. No início desse século, ao sul da França, na região conhecida como Langedoc, ocorreu um massacre de imensas proporções, fruto da intolerância religiosa, associado aos interesses políticos e financeiros. Nesse local, favorecido pelo abandono da Igreja Romana, com seu obscurantismo e ignorância, desenvolveram-se estudos dos clássicos gregos com obras em árabe e hebráico. Os pensamentos hislâmico e cristão, juntamente com o esoterismo hebraico da cabalá, conviviam sem problemas. A Igreja, que à época se comportava como qualquer Instituição mundana corrompida, com tráfico de influências, vendas de cargos na hierarquia eclesiástica, não era bem vista pelo povo dessa região. 
Os Albigenses, habitantes da cidade de Albi, já haviam sido condenados em 1165 por um conselho eclesiástico por causa de suas doutrinas consideradas heréticas pela Igreja Católica. Na verdade existiam outras seitas, mas todas tinham contudo alguns pontos em comum: rejeitavam a fé pregada pela Igreja Católica a qual remontava aos apóstolos e ao próprio Cristo. Negavam as doutrinas da Trindade e do nascimento virginal, do purgatório e da condenação eterna num inferno de fogo. Esse conjunto de seitas, deu origem ao termo Cátaro, derivado do grego Kátharos, que significa “puro”. Por envolver muitas pessoas, foi denominada de Heresia Social Cátara. O assassinato de um embaixador do Papa Inocêncio III, enviado em 1208 àquela região, por pessoas desconhecidas, desencadeou a ação de represália da Igreja Romana contra a heresia social cátara. Com o apoio do povo do norte, que invejava a riquesa e prosperidade do Langedoc, formou-se um exército de milhares de homens, que invadiu a região. Foi um massacre total. Tudo foi destruído, reduzindo a região à desolação. Conta-se que quando um oficial perguntou ao representante do Papa, frade Arnaud Amauri, como poderiam diferenciar os hereges dos crentes verdadeiros, este teria respondido:”Mate-os todos. Deus reconhecerá os seus”. E assim foi feito. Todos foram mortos, homens, mulheres e crianças. 
Deste modo, o século XIII, no seu início, presenciou a intolerância da Igreja na Cruzada Cátara, e viu também a criação de uma Instituição que veio a tornar-se temível na Alemanha, França, Espanha e Itália, a Inquisição. Com o objetivo de eliminar heresias, juntamente com os héreges, tornou-se um instrumento de repressão a minorias e de exacerbação do poder. Aceitava-se a tortura como instrumento adequado para a obtenção da confissão de um suspeito. 
A Inquisição papal foi formalmente instituida pelo Papa Gregório IX em 1231. Seguindo uma lei do Sacro Imperador Romano Frederico II, permitida para os Lombardos em 1224 e extendida para todo o imperio em 1232, Gregorio ordenou que heréticos convictos deviam ser presos pelas autoridades seculares e queimados. Como Frederico, Gregório também mandou que heréticos fossem procurados e investigados antes do contato com a corte da Igreja. Para este propósito ele primeiro escolheu inquisidores especiais (como por exemplo, Conrad de Malburg na Alemanha e Robert, o Burgo, na Burgandia) e, posteriormente, incumbiu a tarefa para membros da recém fundadas Ordens de Monges Dominicanos e Franciscanos. A autoridade independente dos inquisidores era causa frequente de atritos com o clero local e bispos. O procedimento típico começava com a chegada dos inquisidores numa específica localidade. Um período de benevolência era proclamado à penitentes heréticos, após o que denúncias eram aceitas por qualquer um, mesmo criminosos e outros heréticos. Dois informantes cujas identidades eram desconhecidas para a vítima eram suficientes para a acusação formal. A corte então intimava o suspeito, que era conduzido a um interrogatório, e tentava-se obter a confissão que era necessária para a condenação Para conseguir isso, frequentemente eram aplicadas torturas físicas. No começo do interrogatório, o qual era registrado sumariamente em latim por um escrivão, suspeitos e testemunhas tinham que jurar que revelariam todas as coisas. A má vontade para fazer o juramento era interpreta como um sinal de aderência à heresia. Se a pessoa confessasse e era submissa, o julgamento prescrevia penas mais leves como surra com a chibata, jejuns, rezas, peregrinações ou coisas semelhantes. Em casos mais severos, o uso da “cruz da infâmia”, na cor amarela, resultando num ostracismo social, ou aprisionamento, podiam ser impostos. 
A negativa da acusação sem contraprovas, recusa de confessar e persistência na heresia resultava nas mais severas punições: prisão pérpetua ou execução acompanhada pela total confisco de suas propriedades. Desde que à Igreja não era permitido tirar a vida, o setenciado herético era entregue para as autoridades seculares para a execução, usualmente queimado na estaca. Quando a Inquisição tinha completado suas investigações, a sentença era pronunciada numa cerimônia solene, conhecido como o “sermão geral” ou, em castelhano, o “ato de fé”, pelas altas dignidades locais, clérigos e o povo da cidade. Aqui os penitentes abjuravam seus erros e recebiam suas penitências. Heréticos obstinados eram solenemente amaldiçoados e entregues para serem queimados imediatamente em público. 
Muitos manuais dos inquisitores tem sobrevivido, entre eles o de Bernard Gui e Nicolas Eymeric. Outras fontes incluem listas de perguntas padrão e numerosas atas oficiais dos locais das Inquisições. Alguns desses materiais tem sido publicado, mas a maioria existe somente em manuscritos. Os primeiros inquisitores trabalharam na Europa Central (Alemanha, norte da Itália, leste da França). 
Mais tarde centros de Inquisição foram estabelecidos nas regiões mediterrâneas, especialmente no sul da França, Itália, Portugal e Espanha. O Tribunal foi usado na Inglaterra para subjugar os Lollards (seguidores do reformador John Wycliffe, do século XIV). A Rainha Mary I da Inglaterra (1553- 1558) usou o Tribunal no esforço de reverter a Reforma Protestante. A longa sobrevivência da Inquisição pode ser atribuida a antecipada inclusão de outras transgressões, além da heresia: bruxaria, alquimia, blasfemia, aberrações sexuais, e infanticídio. 
O número de bruxas e feiticeiros queimados após o século XV parece ter sido maior do que o dos heréticos. Em 1555, o Papa Paulo IV empreendeu violenta perseguição contra suspeitos de heresia, incluindo bispos e cardeais. Em 1559, elaborou a primeira listagem de livros que atentavam contra a fé e a moral : o Indice de livros proibidos (index livrorum proibitorum). A Inquisição passou por especial desenvolvimento em Portugal e na Espanha e suas colônias. Em Portugal, os judeus espanhóis, fugindo da perseguição e da morte que os ameaçava na Espanha, atravessaram a fronteira após pagarem, por cabeça, uma soma em dinheiro ao rei D. Manuel I. Mais tarde, estes judeus foram submetidos ao batismo forçado e as crianças separadas de seus pais e levadas para os arquipélagos de Açores e Madeira para, junto a casais católicos, crescerem na fé cristã. Portugal instalou seu Tribunal de Santo Ofício no Rossio, em Lisboa e, repetiu o drama de autos de fé encerrados com seres humanos na fogueira. 
Se o acusado, antes do fogo ser aceso, confessasse sua culpa, era garroteado para não ser queimado vivo. Mesmo assim, as chamas cumpriam seu papel de acabar de purgar os pecados e o fogo era aceso para consumir o corpo. Devido a insistência de Fernando II de Aragão e Isabella I de Castela, o Papa Sixtus IV endossou (1483) a criação da Inquisição Espanhola Independente, presidida por um Alto Conselho e Grande Inquisidor. Lenda tem sido feita pelo primeiro Grande Inquisidor, Tomás de Torquemada, um símbolo de extrema crueldade, beatice, intolerância e fanatismo religioso. 
Tomás de Torquemada (1420- 1498) estudou em Valladolid, juntou-se aos Dominicanos como sacerdote do Monastério de Santa Cruz, em Segóvia. 
Em 1474, tornou-se confessor e conselheiro dos “Reis Católicos”, Isabela e Fernando. Apesar de, provavelmente, ter tido origem judia, Torquemada investiu furiosamente contra os judeus ortodoxos e contra os Marranos (convertidos do judaismo), além de outros. Aproximadamente duas mil pessoas morreram e outras tantas, foram torturadas por sua autorização. Devido sua influência, junto aos reis Fernando e Isabela, milhares de judeus, não convertidos, foram expulsos da Espanha. A verdade é que a Inquisição Espanhola era particularmente severa, austera, e eficiente devido seus poderosos laços com a coroa. Seus maiores alvos foram os Marranos e os Moriscos (convertidos do Islamismo), muitos dos quais foram suspeitos de secretamente aderirem às suas antigas crenças. 
A Inquisição foi finalmente extinta na Espanha em 1834 e em Portugal em 1821. Em Roma, no tempo da Reforma, Papa Paulo III criou uma Comissão de Cardeais como Corte Suprema, em matéria de heresia. Esta Inquisição romana foi solidificada (1588) por Sixtus V na Congregação de Roma, como Inquisição Universal, também conhecida como Sagrado Ofício, cuja tarefa era zelar pela doutrina correta da fé e da moral, para a totalidade da Igreja Católica Romana. Reorganizada em 1908 sob o simples título de Congregação do Santo Ofício, foi redefinida pelo Papa Paulo VI em 1965 como a Congregação para a Doutrina da Fé, com a mais positiva tarefa de promover a correta doutrina ao invés de censurar a heresia. 

Bibliografia: História Geral da Civilização - Sérgio B. de Holanda 
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15 setembro 2015

A Heresia: Cátara ou Católica?

por E. R. Mierlo 

Introdução

O catarismo, do grego katharos, que significa puro, foi uma seita cristã da Idade Média surgida no Languedoc (França) ao final do século XI, a qual praticava um sincretismo cristão, gnóstico e maniqueísta, manifestado num extremo ascetismo. Concebia a dualidade entre o espírito e a matéria, assim como, respectivamente, o bem e o mal. A seita era conhecida por sua tolerância religiosa ao passo que conviviam e aceitavam todos os segmentos doutrinários, por exemplo, judeus, pagãos, e até mesmo católicos
Os cátaros foram condenados pelo 4º Concílio Lateranense em 1215 pelo Papa Inocêncio III, e foram aniquilados por uma cruzada e pelas ações da Inquisição, instituída e tornada oficial em 1233.
Os cátaros, também chamados de albigenses, rejeitavam os sacramentos católicos. Aqueles que recebiam o batismo de espírito (consolamentum), eram considerados os "perfeitos" (parfait), levavam uma vida de castidade e austeridade e podiam ser tanto homens quanto mulheres. Os crentes apenas eram os bons homens ou boas mulheres (bons hommes ou bons femmes) e tinham obrigações menores; recebiam o consolamentum somente na hora da morte.
Apesar desta hierarquia, os cátaros não restringiam a experiência transcendental ou divina (no caso, também gnóstica) aos mais graduados, mas a qualquer um que assim desejasse e experimentasse estados alterados de consciência.
Essa concepção sem hierarquia da espiritualidade foi considerada pela igreja católica uma ameaça para a fé e a unidade cristã, já que atraiu numerosos adeptos. Assim sendo, o catarismo foi considerado herético e contra ele foi estabelecida a Cruzada albigense (1209-1229). A cruzada também teve interesses políticos, já que as localidades onde se praticavam o catarismo encontravam-se ligadas ao reino da França, porém independentes do mesmo.
No início do século XII, a Igreja católica presenciou a difusão e crescimento da heresia dos cátaros ou albigenses (nome derivado da cidade de “Albi”, na qual vivia um grande número de heréticos) que se propagara no território do Languedoc ou Occitania,no sudoeste da França.
Antes de tudo, é conveniente ressaltar que o catarismo não pertence exclusivamente ao Languedoc, nem o Languedoc deve ser visto exclusivamente sobre o prisma do catarismo. Aderentes à doutrina cátara recebem diferentes nomes no país em que se inserem: Na Itália, eram conhecidos como “patarinos”, na Alemanha como “ketzers”; na Bulgária, como “bogomils”. Existiram cátaros na França, na Catalunha, na Itália, na Alemanha e, provavelmente, na Inglaterra.
Os cátaros acreditavam que o homem na sua origem era um ser espiritual e para adquirir consciência e liberdade, precisaria de um corpo material, sendo necessário várias reencarnações para se libertar. Eram dualistas e acreditavam na existência e na criação do bem e do mal concomitantemente. Não concebiam a idéia de inferno, pois no fim, o bem triunfaria sobre o mal e todos seriam salvos. Praticavam a abstinência de certos alimentos como a carne e tudo o que proviesse da procriação. Jejuavam antes do Natal, Páscoa e Pentecostes, não prestavam juramento, nem matavam qualquer espécie animal.
Os cátaros organizaram uma igreja e seus membros estavam divididos em bons, perfeitos e bispos. As pessoas se tornavam perfeitos (homens bons) pelo “ritual do consolament”. Esta cerimônia consistia na oração do Pai Nosso, reposição da veste  (preta no início, depois azul e substituída por um cordão no tempo das perseguições). Tocava-se a cabeça do iniciante com o Evangelho de João, e o ritual terminava com o beijo da paz. Os bons podiam abandonar a comunidade quando quisessem, podiam frequentar a Igreja Católica, eram casados e podiam ter filhos. Dessa forma, eles poderiam levar uma vida agradável, obtendo o perdão e sendo salvos.
Durante o período das perseguições as igrejas cátaras foram destruídas e os ofícios religiosos eram realizados em cavernas, florestas e nas casas de crentes. A doutrina cátara foi aceita por contrariar alguns dogmas cristãos, principalmente no que se refere a volta à pobreza e ao retorno do cristianismo primitivo.
Devido à propagação da heresia cátara a partir de 1140, a Igreja começou a tomar medidas para combate-la, sendo que no início tentou convencer os heréticos a retomarem fé católica por meio da pregação, sem adotar medidas trágicas, pois isto não harmonizava com a caridade pregada pelo cristianismo. 
O êxito da propagação da heresia nos bispados do Languedoc, pode ser explicado pela situação política da região, vinculada mas independente do reino da França e as maiores autoridades eram os grandes senhores feudais, o conde de Toulouse e o visconde de Béziers, ambos simpatizantes da heresia cátara.
O movimento cátaro foi desencadeado pelas pregações do monge Henrique, embora este não fosse cátaro, muitos fiéis após ouvir suas palavras deixaram de pagar os dízimos e de comparecer as igrejas, seus ensinamentos foram combatidos por Bernardo de Clairvaux (São Bernardo).
Os cátaros a exemplo dos primeiros cristãos levavam vida ascética de alta espiritualidade, vivenciando na prática um cristianismo puro, numa total renúncia a tudo o que era deste mundo, eram conhecidos como verdadeiros discípulos de Cristo, a serviço do mundo e da humanidade, um verdadeiro exemplo de amor ao próximo.

Os Cátaros

Os cátaros galgavam o caminho da transformação ou da transfiguração.
A verdade é que primeiro foram tidos por loucos e foram deixados em paz com sua “loucura” pela Igreja. Mas quando o poder político de uma região inteira do sul da França (Provence e Languedoc) começou a sofrer a influência dessa crença e passou a converter nobres, então a Igreja começou a perseguir os “loucos”, pois não podia perder as ricas doações e o apoio político-militar de uma parte de seu território mais influente, que era a França.
O Catarismo foi uma filosofia cristã dissidente do catolicismo da Idade Média, que se instalou em países da Europa Ocidental (norte da Itália, França, norte da Espanha e até mesmo na Inglaterra), conhecida como heresia cátara ou heresia albigense, surgida em fins do séc. XII.
Eles contrariavam frontalmente o Dogma católico reinante no que toca a Cristo, a Deus e à Criação. Enquanto os católicos creem que Deus é a fonte do bem e o mal surgiu depois da Criação, os cátaros declaravam que tanto o bem, como o mal surgiram de Deus, Criador de todas as coisas. Tudo na Criação obedecia à Lei dos Opostos. Tudo sofria essa influência primordial. Baseados nisso, discorreram em seus ensinamentos e práticas acerca dos pares "espírito e matéria", "luz e treva", "bem e mal".
A despeito de seu rápido florescimento e expansão, em algumas regiões da Europa não houve tempo para que uma organização cátara vingasse, por causa da rápida e brutal ação da Igreja Católica. Em outras, porém, onde a repressão não obteve resultados imediatos, o catarismo se arraigou vigorosamente em todas as camadas sociais. Essas regiões se encontravam, principalmente, na França (Languedoc, Provence e Occtânia).
No sul da França, as cidades mais importantes e cruciais para o Catarismo foram Agen, Lombers, Saint-Paul, Cabaret, Servian e Montsègur, Albi e Toulouse, comparáveis a bispados e arquidioceses. Havia cidades com hierarquias, assemelhando-se a paróquias.
Os cátaros chamavam a si próprios “bons cristãos” ou “bons homens”. Existia uma distinção entre aqueles que recebiam o Consolamentum (uma espécie de ordenação) e os cristãos normais. O grupo dos ” ordenados” constituía a hierarquia cátara, em que se incluíam os perfeitos, que usualmente pregavam aos pares: o “mais novo” e o decano. Havia um ou vários “mais novos” que se tornavam perfeitos itinerantes e coordenados por um bispo, que tinha à sua responsabilidade uma determinada área geográfica restrita.
Formou-se, então, uma cruzada anti-cátara, reunindo exércitos da Itália, Espanha, Alemanha, da própria França e Áustria, visando, com a bênção papal, exterminar os hereges. Uma figura-chave no início do conflito e na resistência cátara foi o conde de Toulouse, Raymond VI. Homem pacato, pacífico, que embora não fosse um cátaro, era tolerante com a fé alheia e os protegia. Foi destituído por ordem da Igreja que, no IV Concílio de Latrão, condenou de vez a heresia cátara e determinou a instiuição da Inquisição, para que houvesse quem se dedicasse ao santo trabalho de julgar, perseguir e matar todos os hereges em cada canto da Europa. Mas Raymond VI deu trabalho, reconquistou Toulouse aos cruzados e resistiu por longo tempo ainda. Do alto das torres, inocentes se atiraram em fogueiras, no fundo de penhascos, para não se renderem à tirania católica.
Mas, como não poderiam resistir tanto tempo ao ódio de uma Igreja poderosa, que os queria exterminar logo, acabaram decaindo nos idos do séc. XIII.
Um episódio marcante que retrata o começo do fim da doutrina cátara na França, foi o massacre de Montségur. Era quarta-feira, 16 de Março de 1244, tendo caído a fortaleza de Montségur, a 1.200 metros de altitude, após 10 meses de cerco, 225 homens, mulheres, crianças e idosos  preferiram as fogueiras, preparadas para esse fim pelos Inquisidores, recusando-se a abjurar sua fé.
Após esse episódio-chave, houve uma grande dispersão e fuga de cátaros para diversas regiões, principalmente para o norte da Itália e Lombardia. Mas logo foram novamente acossados e as hierarquias cátaras se viram constrangidas ao reduto fortificado de Cirlien. que transformou-se em um novo Montségur. Assediada, a fortificação rendeu-se em 1276 e duzentos perfeitos e perfeitas foram queimados. Nos Balcãs, em contrapartida, a heresia dualista, transformada em religião de Estado na Bósnia manteve-se até à conquista turca no século XV. Recusando aliar-se, tanto à Igreja de Roma como à Igreja Ortodoxa, os bósnios, se bem que de etnia eslava, aderiram ao Islã e seus descendentes são os atuais muçulmanos da Bósnia.
Os relatos e referências aos cátaros vão desaparecendo aos poucos, e a religião cátara torna-se ainda mais minoritária e clandestina que um dia já fora. As maiores fontes a respeito dos últimos cátaros são os documentos da Inquisição, mormente os registros em cidades pequenas e do interior.

O País Cátaro, Carcassone ou Languedoc

Castelo de Montségur
Saindo de Aix Provence, ainda pelo Sul da França, sentido Espanha, chega-se na região do Languedoc (ou literalmente, região da "Língua do Oc", partícula cujo significado é “sim” no dialeto provençal, em contrapartida ao "oui" no restante da França), conhecida também como o “Pais Cátaro” e indicado por uma placa na estrada “Pays Cathare”, pisa-se então em solo dos cátaros. Ali eles viveram e deixaram sua mensagem, por entre os vinhedos e as planicies do Languedoc, na estrada, desde Provence, seguindo em direção aos Pirineus.
Na cidade de Breziers, pode-se visitar a famosa Catedral de St. Nazaire. Em 21.07. 1209, essa cidade foi cercada pela “cruzada” contra os bons homens, ordenada pelo Papa Inocêncio III, pelo rei Felipe, da França e comandada pelo sanguinário Conde Monfort, mais de 7.000 pessoas foram mortas pelos soldados do Papa, homens, mulheres, velhos, crianças. Indagado sobre como fazer para reconhecer os cátaros dos não cátaros, Monfort, com o apoio do Papa Inocêncio III, se limitou a dizer: “- Mate-os todos, Deus reconhecerá os seus”! A maior parte da matança ocorreu dentro da Igreja Madeleine e na Catedral de Saint Nazaire. Mas saber dos fatos e visitar o ambiente físico nas ruas de Breziers, é muito diferente, vive-se a história.
Carcassone (la Cité, a Cidadela) é uma cidade fortificada, com mais de 1.500 anos de existência, foi atacada inúmeras vezes, ao longo dos séculos medievais e suas muralhas reconstruídas e acrescentadas, ao longo dos anos. Caminhar por sua ruelas de pedra, cercada de muralhas, é uma aventura cercada de espiritualidade, onde cada paralelepípedo tem a sua parte na história. Presenciar a luz solar, seja ao nascer ou por do sol, banhar as pedras milenares da velha cidade, torna-se uma experiência indescritível. A cidade de Carcassone é dividida pelo rio Midi, a parte antiga (a foritificada) e a nova. As torres do Castelo Comtal, são imponentes e pode ser vistas ao longo de toda a cidade, cruzando o rio, chega-se a parte fortificada, as muralhas, na entrada. Dentro das muralhas, há uma cidade, com moradias, lojas, restaurantes, hotéis, museus, etc, tudo instalado na construção original, milenar, pois a cidadela de Carcassone é tombada pela Unesco e, salvo engano, é a cidade fortificada mais bem preservada do mundo. Ainda dentro das muralhas, está o Castelo Comtal, do honrado Conde Roger Trencavel, sobrinho de Pedro II de Aragão. Quando Carcassone foi cercada pelas tropas do Papa, na cruzada contra os cátaros, em Agosto de 1.209 (após o massacre de Breziers), o Conde Trencavel abrigou os bons homens dentro de seu castelo e, junto com seu tio, Pedro II, não aceitou a proposta das tropas que autorizaram apenas a sua saída e de mais 12 companheiros da cidade, deixando os cátaros à mercê da cruzada. Conde Trencavel permaneceu ao lado dos bons homens, até a tomada e derruada de Carcassone, falecendo com 24 anos, aprisionado nas masmarras de seu castelo. Sua honra e lealdade salvou da morte centenas de cátaros que conseguiram escapar do cerco a Carcassone, buscando abrigo nas imediações dos Pirineus, em Montsegur.
A região do Midi-Pyrénées, no Sul da França, a 1.207 metros acima do nível do mar, ficou célebre pois sobre as suas montanhas, mais precisamente no alto de Montségur, houve uma aldeia fortificada que foi esmagada pelo poder da Igreja Católica e a Coroa Francesa.
Em 1215, o Quarto Concílio de Latrão denunciou a fortificação cátara como reduto de heréticos. Entre 1243 e 1244, Hugues d’Arcis, senescal de Carcassonne e o arcebispo de Narbonne, conduziram a cruzada, e após audaciosa escalada noturna puseram fim ao ninho de subversão e imoralidade. Como já citado acima, os cátaros que não abjuraram seus erros pereceram na fogueira.
A cidade velha de Albi reflete o ápice da arquitetura e do urbanismo medieval, às margens do rio Tarn, no sudoestre da França. Hoje, a Ponte Velha (Pont-Vieux), o quarteirão de Saint-Salvi e sua igreja são testemunhos desse desenvolvimento, datado dos séculos X e XI. Após a Cruzada Albigense contra os hereges cátaros no século XIII, a cidade tornou-se um centro episcopal poderoso. Construída segundo o estilo peculiar do gótico do sul da França, com a utilização de tijolos locais de cor vermelha ou laranja, a Catedral fortificada do final do século XIII se impõe na paisagem da cidade, demonstrando o poder desempenhado pela Igreja Católica. Ao lado da Catedral, encontra-se o amplo Palácio bispal de la Berbie, situado do lado oposto ao rio e cercado por áreas residenciais da Idade Média. A Cidade Episcopal de Albi forma um conjunto coerente e homogêneo de monumentos e edificações mantidos inalterados ao longo dos séculos. Albi também é a cidade natal de Toulouse-Lautrec.

 A Cruzada Albigense ou Cátara

Nos primórdios do século XIII, as regiões do Languedoc encontravam-se sob o domínio de vários senhores, o principais eram:
1 - O condado de Toulouse, governado por Raymond VI de Toulouse, dominava a zona compreendida entre os vales do Garona, Rouergue e Quercy, aos quais se acrescentavam as suas posses na Alta Provença.
2 - O condado de Cominges, sob o poder de Bernardo IV de Cominges, conde de Cominges e de Bigorra, primo de Raymond VI e vassalo do mesmo enquanto que senhor de Samatan e Muret.
3 - O condado de Foix, cujo titular era Raymund Roger I, vassalo do mesmo conde.
4 - O viscondado de Béarn.
5 - O viscondado de Carcassone, Béziers, Albi e Limoux, cujo senhor feudal era Raymundo Roger Trencavel, sobrinho de Raymond VI. Possuía o principado que abrangia de Carcassonne a Béziers. A família Trencavel rendia homenagem à Coroa de Aragão desde 1179, sendo à vez vassalos do Condado de Toulouse. A dinastia feudal Trencavel mantinha assim mesmo alianças com o Viscondado de Minerve.
6 - A Coroa de Aragão, domínios do rei Pedro II de Aragão, à que rendiam vassalagem os condes de Toulouse.
Sob todos esses comandos e senhorios, as cinco dioceses cátaras, Narbona, Albi, Carcassonne, Cahors, Toulouse e até mesmo Agen ocupavam, quase exatamente, os territórios dos grandes senhores feudais do Languedoc. Os cátaros recebiam o apoio de alguns nobres e conseguiram assentar-se graças à ação exemplar dos perfeitos e à incapacidade do clero católico. Os perfeitos e perfeitas não eram muito numerosos, mas uma grande parte da da população tolerava a sua doutrina e até mesmo a favorecia.

Causas da Cruzada

O catarismo é frequentemente classificado como uma religião de caráter gnóstico e maniqueísta, especialmente inspirada no movimento dos bogomilos que surgiram no século X nos Bálcãs e com influências litúrgicas do cristianismo primitivo.
O catarismo teve um forte auge durante os séculos XII e XIII na Europa Ocidental, onde chegaram a ser conhecidos também como Albigenses, em alusão à cidade de Albi, onde residiam algumas das maiores comunidades cátaras, com outras estabelecidas a norte da Itália, no reino de Aragão e condado de Barcelona, embora o seu encrave principal se encontrasse na região do Languedoc, ao sul da atual França. O catarismo foi implantado nomeadamente nos burgos (populações complexas nas quais coexistiam os senhores, cavaleiros, burgueses e povo em geral) em povoações interioranas e rurais e, em cidades bem estabelecidas. A liderança dos cátaros era protegida por nobres poderosos, e também por alguns bispos, que se ressentiam da autoridade papal em suas dioceses. Em 1204, o Papa suspendeu a autoridade de alguns desses bispos, nomeando legados papais para agir em seu nome. Em 1178 Henri de Marcy, legado do papa, qualificou as populações cátaras com a alcunha, em latim, de sedes Satanae, sedes de Satã.

Doutrina

O catarismo era baseado numa interpretação dualista do Novo Testamento (recusavam o Antigo por entenderem ser ele uma crônica da criação do mundo material). Deste jeito defendiam a existência de dois princípios supremos: o Bem (espírito) e o Mal (matéria), sendo o primeiro o criador dos espíritos e o segundo o da matéria.
Para eles, o mundo era uma plasmação desta dualidade na qual vagavam as almas (espíritos puros) envolvidas nos seus corpos (matéria). Rejeitavam o conceito do Inferno, sendo o equivalente a este o próprio mundo no qual as almas deviam purificar-se, através de sucessivas reencarnações, até atingir um grau de autoconhecimento que os levaria a visão da divindade, escapando do mundo material para o paraíso espiritual.
Para chegar a este estado pregavam uma vida ascética e contemplativa. Aos que seguiam sem restrições a doutrina, denominavam "perfeitos" e consideravam-nos uma espécie de herdeiros ou continuadores das práticas dos apóstolos, tendo o poder de absolver pecados através da cerimônia do consolamentum, único sacramento na religião cátara.

Posição da Igreja católica

A doutrina cátara chocava-se radicalmente em muitos pontos cruciais com a doutrina pregada pela Igreja Romana. Entre outras coisas:
- Negava a existência de um único Deus, ao afirmar a dualidade da criação, espiritual e material.
- Negava o dogma da Trindade, recusando o conceito do Espírito Santo e afirmando que Jesus não era o filho de Deus encarnado, mas um homem sábio e puro que ensinava o caminho à perfeição.
- Apresentava um conceito do mundo e da Criação diferente, os quais, para os católicos, o mundo e o homem seriam bons ao serem criados por Deus e o mal originava-se da corrupção do homem no pecado original, para os cátaros, o bem e o mal foram criados conjuntamente.
- Propugnava a salvação através do conhecimento humano esotérico (gnose) em vez da fé em Deus.
- Recusavam os juramentos, por os considerarem ataduras ao mundo material, o que atacava pela sua vez a própria disposição da sociedade feudal europeia, onde dado o analfabetismo reinante quase todas as transações comerciais e comprometimentos de fidelidade eram baseados neles.
Por tudo isso, a Igreja e o Papa Celestino III trataram de contra-balançar o auge do catarismo mediante uma política missionária, multiplicando as fundações cistercienses (ordem católica fundada no ano de 1098 em Bologna)  e enviando pregadores de relevância, como Bernardo de Claraval (São Bernado), no século XII.
Já em finais desse século, Celestino III foi sucedido por Inocêncio III, que pela sua origem familiar era um grande senhor feudal. Cria na virtude das armas quando guiadas por Deus; também era um jurista, formação que recebera em Paris e Bolonha. Compreendeu que o catarismo surgira por uma carência da Igreja, ou seja, havia poucos clérigos católicos bem instruídos, poucas abadias e bispos, muitos destes últimos apenas visitavam as suas dioceses para coletar impostos.
A 1 de abril de 1198 escreveu aos seus arcebispos instando a retaliar os hereges cátaros. Em 1199 equiparou a heresia ao crime de lesa majestade, no ano sucessivo, escomungou os hereges obstinados e confiscou seus bens. Esta disposição foi estendida à Occitânia em julho de 1200. Instituiu legados e outorgou-lhes plenos poderes: direito de excomunhão, de pronunciar interdito, de se fazerem obedecer pelos prelados e, em caso necessário, de substituí-los por homens mais decididos. A sua principal missão consistia em reformar o clero local e combater a heresia.

As missões

No Outono de 1203, Inocêncio III designou como legados dois irmãos cistercienses da Abadia de Fontfroide, Raoul de Fontfroide e Pierre de Castelnau, um jurista da ordem do cister que se conduzia com intransigência de um juiz seguro da lei que aplicava. Em dezembro do mesmo ano, os legados Raoul e Pierre, dirigiram-se a Toulouse e exigiram juramento do conde Raymond VI que este extirparia a heresia dos seus domínios.
Em fevereiro de 1204 numa reunião em Béziers, o rei Pedro II de Aragão reconhecera-se vassalo da Santa Sé mas, contra do pedido dos legados, manifestou que não estava disposto a fazer uso da espada contra os seus vassalos, senão todo o contrário.
Meses mais tarde Arnaud Amaury, abade de Cîteaux, incorporou-se à delegação, mas mesmo com o reforço deste, os legados não obtinham sucessos. Justamente porquê, a apresentação dos legados, não era a mais adequada, pois percorriam o país em luxuosos carros de cavalos acompanhados por um cortejo de servidores, quando precisamente, o luxo e a suntuosidade era o que mais reprovava o povo do Languedoc à igreja romana.
Em maio de 1206 os abades decidiram regressar às suas respectivas abadias. No caminho de regresso fizeram uma parada em Montpellier e ali coincidiram com dois castelhanos que regressavam de Roma. Eram Diego de Acebes, bispo de Osma, e o seu vice-prior, Domingos de Gusmão, posterior fundador da Ordem Dominicana. Este encontro foi decisivo. Os legados expuseram as suas dificuldades: quando pregavam, era objetado o comportamento detestável dos clérigos, mas se se dedicavam a reformar os clérigos, teriam de renunciar à pregação. Os castelhanos expuseram a solução: pôr de lado a reforma dos clérigos e dedicar-se exclusivamente à pregação mas, para que esta fosse eficaz, era preciso que cumprira uma condição imperativa: a pobreza, ou seja, viajar com humildade, ir a pé, sem dinheiro, em casais, imitando os costumes dos Perfeitos cátaros e que antigamente utilizaram os apóstolos.
Pouco a pouco, os métodos de Diego de Acebes e Domingos de Gusmão conseguíam os seus efeitos, convertendo crentes cátaros e até mesmo alguns perfeitos. Diego regressou para Osma e Domingos de Gusmão escolheu então como companheiro a Guillem Claret, clérigo de Pamiers, com o que se instalou em Fanjeaux, no centro da região, onde converteu a um grupo de perfeitas e mulheres crentes cátaras e instalou-as no Mosteiro de Prouilhe, perto de Fanjeaux, tornando-se num centro educacional e hospitalar de garotas, a semelhança das "Casas das Perfeitas".

O insucesso das missões e o casus belli

Os sucessos de Domingos de Gusmão dão ao manifesto a eficácia dos seus métodos, mas tratava-se de uma pregação longa e difícil que exigia modéstia e paciência, Domingos de Gusmão parecia adaptado a esta situação, mas apesar disso, ao contrário que os cistercienses esperavam, por conversões massivas e entusiastas, tinham que ir de povoação em povoação, enfrentando os contra-pregadores cátaros que muitas vezes conheciam o Evangelho melhor que os clérigos. Deste modo, para os cistercienses a campanha de 1207 foi um insucesso.
Neste clima, com a heresia em pleno auge e a crescente humilhação da Igreja frente a passividade e conivência dos senhores occitanos, faltava apenas uma centelha que serviria de argumento a Inocêncio III para tomar as armas. Isto ocorreu em meados de 1208 com o assassinato em Saint-Gilles do legado papal Pedro de Castelnou (atribuído, segundo as crônicas, a uma ordem do conde toulousano Raymond VI). O papa pronunciou um anátema contra o conde e declarou as suas terras "entregues como presa". Isto equivalia a uma chamada direta a Filipe II, rei da França, bem como a todos os condes, barões e cavaleiros do seu reino para formarem uma Cruzada.

Desenvolvimento da Cruzada

O desenvolvimento desta Guerra Santa ou cruzada, é com frequência relatado pelos historiadores em três fases distintas:
A primeira etapa, a partir de 1209 e que se destacou por episódios de grande violência, como o da matança de Béziers. A cruzada formava com as forças militar dos senhores Capetos, provenientes da ilha de França e do Norte, comandada por Simão de Montfort, com oponência da nobreza toulousana, encabeçada pelo conde Raymond VI de Toulouse e a família Trencavel, os quais, sendo aliados e vassalos do rei de Aragão Pedro II o Católico, invocaram à participação direta do monarca no conflito, que foi derrotado e morto na Batalha de Muret em 1213.
A segunda etapa, inicia com a morte de Simão de Montfort no sítio à Toulouse, após o retorno do conde Raymund VII de Toulouse e a consolidação da resistência occitana, apoiada pelo conde de Foix e forças aragonesas. Esses fatos originaram a intervenção militar do rei Luís VIII da França, a partir de 1226 com o apoio do Papa Honório III, que culminou no Tratado de Meaux-Paris de 1229, no qual foi pactuada a integração total do território occitano à coroa francesa.
Numa última etapa, os abusos da já instalada Inquisição, provocaram numerosas revoltas e sublevações urbanas, como última alternativa, Raymund VII com apoio da coroa inglesa e dos condes de Lusignan, tentou contra-atacar, mas os acontecimentos culminaram na tomada das últimas fortificações cátaras, o Castelo de Montsegur e de Queribus, em 1244.

O assassinato de Castelnau e chamada a cruzada

Em 1207, enquanto Domingos e os outros cistercienses pregavam, o legado papal Pierre de Castelnau tomou a iniciativa de expor um acordo geral de paz a todos os condes e senhores do Languedoc. Propôs que se comprometerem a não empregar judeus na sua administração (para evitar empréstimos que não fossem eclesiásticos), devolver o dinheiro não pago às igrejas como forma de tributo, não contratar salteadores e, sobretudo, perseguir os hereges cátaros.
Para o conde Raymund VI de Toulouse era impossível aceitar estas condições, sem quebrar os fundamentos do seu poder, de modo que não aceitou as condições e foi excomungado por isso em 29 de maio de 1207. Temendo as consequências, decidiu então prestar juramento e foi-lhe levantada a excomunhão. Mas, evidentemente, não pôde colocar em prática as petições e foi novamente excomungado numa reunião em Saint-Gilles, um a no após.
Em 14 de janeiro de 1208, Castelnau foi assassinado as margens do rio Ródano, ao voltar da reunião de Saint-Gilles. O assassinato não foi ordenado por Raymund VI, mas toda a responsabilidade recaiu sobre ele e os senhores feudais occitanos, com os que ele mantinha vínculo.
O Papa Inocêncio III acusou abertamente ao Conde de Toulousa e ordenou que uma cruzada militar substituísse a cruzada pacífica.
O desfecho político para efetuar uma evangelização frutífera com garantias militares, era confiada pelo Papa ao rei Filipe Augusto da França, mas este, em guerra com a Inglaterra e, o reino francês não podia manter dois exércitos, um para se defender de Inglaterra e outro para perseguir hereges.
Em 9 de março de 1208, o Papa dirigiu uma carta a todos os arcebispos do Languedoc e a todos os condes, barões e senhores do reino da França, na qual, um fragmento desta dizia:
Despojai os hereges das suas terras. A fé desapareceu, a paz morreu, a peste herética e a cólera guerreira cobraram novo alento. Prometo-vos a remissão dos vossos pecados se puserdes limite a tão grandes perigos. Ponde todo o vosso empenho em destruir a heresia por todos os meios que Deus vos inspirará. Com mais firmeza ainda que com os Sarracenos, pois são mais perigosos, combatei os hereges com mão dura.
Desta forma, Inocêncio III, outorgava a quem tomasse parte da Cruzada, iguais privilégios concedidos para as cruzadas na Terra Santa: absolvição dos pecados, promessa do paraíso para os mortos no combate e as terras tomadas e "limpas de hereges" passariam à posse, em pleno direito, do cruzado que as conquistar.
Uma numerosa tropa foi formada e enviada a um território com diferentes senhores feudais, mal defendido e pouco habitado. A vitória parecia fácil aos barões habituados às cruzadas no Oriente Médio. Primariamente a força bélica era formada por nobres e seus exércitos particulares, vindos da França, dispostos a não prolongarem a estadia além dos quarenta dias regulamentares, tempo mínimo para obterem os direitos pela participação na cruzada.
Simão de Montfort, barão de Amury, proveniente de ilha de França, destacaria como chefe militar da cruzada; Arnaud Amaury, abade de Cîteaux e esse foi designado pelo Papa chefe religioso da expedição. O financiamento, a princípio, recaiu nos prelados, que deviam detrair das populações de suas dioceses 10% da renda.
A concentração de tropas aconteceu em Lyon: 20.000 cavaleiros, mais de 200.000 cidadãos e camponeses, sem contar o clero. Assim o descreve o trovador da época Guillem de Tudèle; o certo é que a chamada concentrou um elevada tropa.
Os cruzados partiram para o Midi-Pyrénées baixando pelo vale do Ródano. Raimon Roger Trencavel, visconde de Carcassonne e conde de Béziers, cavalgou ao seu encontro numa tentativa de chegar a um acordo com os legados papais. Ele nada tinha a ver com o assassinato de Pierre Castelnau, mas era suspeitoso de heresia e foi recusado. Trencavel dirigiu-se imediatamente para Béziers, pôs a cidade e seus cônsules em estado de defesa, partindo imediatamente para Carcassonne para fazer o mesmo.

A cruzada dos barões ou guerras relâmpagos

Simão de Montfort à frente do exército cruzado atacou a cidade de Béziers e exterminou uma parte da população sem levar em conta a sua filiação religiosa e pronunciando, segundo a crônica de Cesáreo de Heisterbach, a frase já citada: Matai a todos, Deus reconhecerá os seus!
Esta primeira matança, de 7.000 a 8.000 pessoas, que aconteceu na igreja da Madeleine, não entrava nos costumes da época. É considerada hoje, mais um golpe de efeito ou instauração de terror entre a população, para causar pânico e para evitar resistência nos senhores do Labguedoc, segundo alguns cronistas, embora outros salientem 0 caráter cruel do chefe militar da cruzada.
Após a conquista de Béziers, a cruzada avançou para Carcassonne. O massacre da cidade anterior causou efeito e todas as fortalezas e burgos capitulavam sem oferecer resistência.
Os cruzados chegaram a Carcassonne em 1 de agosto de 1209. Pedro II de Aragão cavalgou até a cidade solicitando condições de paz aceitáveis para o seu sobrinho Raymond Roger Trencavel. Arnaud Amaury exigiu pela sua vez as suas condições: autorizava somente Raymond Roger e doze acompanhantes a abandonarem a cidade. As condições foram inaceitáveis para Trencavel que, com apenas vinte e quatro anos, faleceria nas masmorras da que fora a sua própria fortificação, uma vez tomada a Citadela.
Reforçado no seu posto de chefe dos cruzados, Montfort empreendeu a seguir a conquista da região de Rasez. Montréal, Preixan, Fanjeaux, Montlaur, Bram que caiam sistematicamente.
Pôs cerco a Minerve e em junho de 1210, com a queda da vila, 140 cátaros seriam queimados vivos. A seguir, durante quatro meses, assediou o Castelo de Termes e depois, o de Puivert que caiu em três dias. Após a queda destes dois bastiões, Pierre-Roger de Cabaret decidiu entregar os Castelos de Lastours ao chefe cruzado, em troca da libertação de Bouchard de Marly, senhor de Saissac.
No fim desse mesmo ano, Montfort controlava todo o leste do Languedoc e foi nomeado visconde de Rasez. Estava preparado para se adentrar nos domínios dos dois senhores mais poderosos da Occitânia, os condes de Toulouse e Foix.
Penetrou pela vila de Lavaur, a pouco mais de trinta quilômetros da cidade do Garona. A 3 de maio de 1211 as suas tropas entraram na cidade desencadeando uma feroz repressão. O senhor Aymeri de Montréal e oitenta dos seus cavaleiros foram enforcados, a sua irmã Guiraude, grávida, foi lapidada no fundo de um poço e quatrocentos cátaros foram queimados vivos. A seguir dirigiu-se à próxima Toulouse sem conseguir submetê-la. Então, Raymund VI tinha já pedido ajuda a todos os seus vassalos e ao rei de Aragão e dispôs-se a apresentar batalha.

A batalha de Muret

A primeira batalha entre cátaros e tropas da Igreja aconteceu em Castelnaudary, em setembro de 1211. O resultado foi incerto e, embora as abundantes baixas, ambos os lados reclamaram a vitória e seria apenas o preâmbulo de um confronto maior.
Chamado por Raymund VI de Toulouse, Bernardo IV de Comminges e Raymund Roger de Foix, Pedro II de Aragão decidiu acudir na seus súditos no verão de 1213. O Rei Aragonês chegou ao Languedoc, precedido pelo sucesso na Batalha das Navas, na qual participara com os outros reinos cristãos peninsulares.
Em 30 de agosto pôs cerco ao castelo de Muret, a uns vinte quilômetros a sudoeste de Toulouse, onde se refugiavam os cavaleiros cruzados. Simão de Montfort, que se encontrava naquele momento em Fanjeaux, partiu para Muret na companhia de outros mil cavaleiros, chegando na véspera da batalha.
Em 12 de setembro de 1213 as ruas de Muret, estreitas e cheias de barricadas, serviram de refúgio aos cruzados, amplamente superados em número pela aliança occitano-aragonesa, que porém acabaria sofrendo uma derrota sem paliativos.
Num mesmo dia os occitanos perderam entre 10.000 e 15.000 homens e faleceu na batalha, o Rei de Aragão. As cidades de Foix, Narbona e Comminges passaram às mãos de Simão de Monfort. Em novembro de 1215 o Concílio de Latrão IV despôs Raymund VI e Raymund II Trencavel das suas terras de Toulouse, nomeando a Montfort duque da Narbona, conde de Toulouse e visconde de Carcassonne e Rasez. O Concílio também nomeou Arnaud Amaury como arcebispo de Narbona. Aparentemente a cruzada venceu.

A reconquista occitana e a intervenção real francesa

Inocêncio III faleceu em 1216 e a sua morte desencadeou uma sublevação geral. Raymund VI, que estivera rearmando-se no Condado de Barcelona, desembarcou em Marselle com o seu filho Raymund VII e retomou a luta.
Em agosto de 1216 derrotou pela primeira vez a Simon Montfort em Beaucaire. Este tratou de se desfazer definitivamente do seu adversário, pondo assédio à cidade de Toulouse, mas a 25 de junho de 1218 uma pedra de catapulta lançada por mulheres da cidade, segundo contam os cronistas, acertou no general inimigo e matou-o.
O seu filho, Amaury VI de Monfort, sucede-lhe, mas não tinha o gênio militar do seu pai e foi derrotado sucessivamente. Em 1221 os cruzados abandonam o cerco de Castelnaudary, onde mantinha preso o conde de Foix, e fugiram para Carcassonne. Raymund VII, após o falecimento de seu pai, aliou-se a Roger-Bernard e recuperou sucessivamente Montréal, Fanjeaux, Limoux e Pieusse. Continuou as sua marcha de conquistas pela região e em março de 1223, tomou Mirepoix, onde se encontrava Guy I de Lévis, Marechal da Fé e tenente de Montfort, que fugiu também para Carcassone.
Com os contra-ataques dos cátaros, os cruzados retrocederam até posições similares ao começo da guerra, o novo Papa Honório II reagiu excomungando o novo conde toulousano. Pela sua vez Luís VIII de França, por influência da sua esposa Branca de Castela, foi convencido para tomar ele próprio as rédeas da Cruzada. Em 1226 rumou com as suas tropas ao vale do Ródano e submeteu Avinhão. Advertidos da presença da armada real, os habitantes de Carcassonne rebelaram-se contra a família Trencavel, que se voltara a estabelecer na cidade, e foi forçada a retirar-se para Limoux. Finalmente, após escrever uma carta em 17 de junho de 1227, Trencavel fugiu para Barcelona, deixando as suas terras sob a proteção de Roger-Bernard de Foix.
Derrotado Trencavel e excomungado Raymund VII, os occitanos viram-se forçados a assinar os humilhantes termos do Tratado de Meaux.

Ultimas batalhas, exílio e decadência cátara

Ainda em 1240 Trencavel tentaria recuperar os seus antigos domínios,  comandando um exércitos de faydits (cavaleiros occitanos favoráveis ao catarismo e despojados dos seus domínios) de Rasez, o Carcassonnense e Fenolheda apoiados por infantaria aragonesa. Porém, no lugar de aproveitar o efeito surpresa e dirigirem-se diretamente a Carcassonne, foram para as fortalezas da comarca de Minerve, a Montanha Negra e as Corbières, dando tempo ao senescal da Cité, Guilhaume des Ormes, reforçar as suas defesas. Finalmente o assédio fracassou e os condes de Toulouse e Foix acudiram em ajuda à Trencavel, para lhe permitir uma rendição honorável e fugir para Aragão.
Em 1242 Raymund VII de Toulouse, com o apoio de Trencavel, Almaric visconde de Narbona e o conde de Foix, apropriou-se de Rasez e a seguir do Minervois e Albi antes de entrar em Narbona. Os franceses resistiram em Carcassone e Béziers, e as chamadas de Raymund VII e pedido de ajuda aos duques de Bretanha, condes de Provença e ao rei de Aragão foram desouvidas. Luís IX marchou para o Languedoc, obrigando uma vez mais o conde toulousano a capitular. Em janeiro de 1243 Raymund VII fez ato de submissão a Luís IX e foi seguido pelo conde de Foix e o visconde de Narbona.
Em que pese à derrota dos senhores feudais, a heresia cátara seguiu presente no Languedoc. Para terminar de extirpá-la, a Igreja criou a Inquisição, que a princípio se centraria em reprimir cátaros e valdenses. A sua presença foi motivo de diversas revoltas populares e fez com que os cátaros se retirassem paulatinamente à fortificações afastadas, com a esperança de sobreviverem em paz longe do conflito.
A principais fortalezas para onde se retiraram foram Montsegur e Quéribus, mas a queda destes castelos, em 1244 e 1255 respectivamente, causariam as últimas matanças da guerra e o fim do catarismo. A Inquisição continuaria agindo na área do Languedoc, por três quartos de século, mas julgando apenas casos individuais, até se acercar da extinção da heresia e se propagar ao restante da Europa.

Consequências

A primeira e evidente consequência da cruzada aconteceu no plano religioso. O movimento cátaro, ainda sem parar de ser minoritário e que pese ter sido perseguido em outras partes da Europa, atingiria ao longo o século XII uma influência crescente na sociedade do Languedoc, incrementando o seu número de fiéis, particularmente entre os membros da nobreza. Como consequência da guerra e da repressão posterior, o movimento foi desorganizado e entrou em decadência.Embora conseguisse sobreviver em áreas periféricas do reino de Aragão e da Bósnia, a sua influência acabou desaparecendo de Europa Ocidental em princípios do século XIV (definitivamente com a conquista turca da Bósnia). A Igreja Católica consolidou a sua posição hegemônica antes que a ameaça herética se estendesse por toda a sociedade languedociana ou a outros territórios. Além disso, no curso do conflito nasceram dois instrumentos que seriam fundamentais para a Igreja nos séculos seguintes: a Inquisição e a Ordem dos Irmãos Pregadores.
No plano político houve duas consequências principais, o fim da expansão aragonesa ao norte dos Pireneus e o desaparecimento do Condado de Toulouse, que teve as suas terras anexadas ao Reino de França.
Pelo seu lado, a dissolução do Condado de Toulouse e a integração dos seus territórios na Coroa francesa foi especialmente transcendental pelo momento em que se produziu. Dado o grau de autonomia, riqueza e o seu crescente peso estratégico ao dar à França acesso ao Mat Mediterrâneo (o que seria aproveitado pelo próprio Luís IX para partir às cruzadas no Oriente Médio, desde Aigues-Mortes) e o Reino de França assentou autoridade sobre territórios nos quais se apoiaria durante a Guerra dos Cem Anos..
No plano cultural, a inclusão teve como efeito um progressivo declínio do occitano.
Em meados do século XX diversos investigadores e historiadores recuperaram a memória da cruzada albigense como reivindicação do patrimônio histórico-cultural da região cultural francesa da Occitânia, sendo o conceito do catarismo explorado atualmente com fins comerciais e turísticos com a marca "Pays Cathare" (País Cátaro).

A Inquisição e os Cátaros

A instauração da Inquisição, está ligado ao momento em que a Igreja se torna parte de um sistema institucionalizado de dominação feudal. Com o triunfo do catolicismo no Baixo Império Romano, no século IV, a Igreja e o Estado se estabelecem com identidade de interesses, a heresia passa a identificar-se como crime político. Entre os séculos V e IX, a Igreja foi consolidando sua hegemonia, impondo uma unidade ritual, buscando unir as diversidades religiosas. Em 1216, institui-se a ordem mendicante dos pregadores de São Domingos, com o objetivo de não só pregar a fé católica, mas de agir em sua defesa. Pouco depois, nasceria a idéia de um tribunal organizado no combate as dissidências religiosas.
A heresia cátara fornece ao papado a oportunidade de transformar em realidade o seu poder político repressivo. No ano de 1233, o papa Gregório IX, promulga duas bulas, nas quais decide mandar monges dominicanos aos locais onde havia focos heréticos. E em 1252, uma bula do papa Inocêncio IV, completará o processo de institucionalização da Inquisição como tribunal.
Durante os processos inquisitoriais, não era permitido a defesa legal, sendo proibido o apelo à sentença. A tortura seria aplicada não só aos acusados, mas também aos que os acorbetassem. Santo Agostinho, considerava a tortura um meio útil para devolver ao rebanho as ovelhas desgarradas, já que estas só causariam dano a sociedade.
O Papa era o inquisidor-mor, lhe cabendo a incumbência de designar inquisidores. Os inquisidores dominicanos, chegaram a França, em 1233, onde foi instalado o primeiro tribunal permanente da Inquisição. As violências e perseguiçôes se desenvolveram (coletivamente) desse ano e salientaram-se (ainda que individuais) entre os anos de 1277-1278, os inquisidores chegaram a ser repelidos em Béziers e Carcassone (1296), pelo povo e pelas autoridades municipais, havendo uma queda na simpatia popular da Inquisição.
O catarismo desaparecerá completamente do território francês, após ter sido extirpada de Montaillou, última aldeia francesa que ainda sustentava esta heresia no início do século XIV.
A Igreja Católica usou de vários meios para eliminar a heresia, no início tentou converter os hereges pela pregação dos monges, depois através da excomunhão dos pecadores, e de poder militar, mas finalmente, o que obteve maior resultado, a Inquisição. As heresias acabaram por alertar a Igreja para seus problemas espirituais e de que seria necessário uma reforma, principalmente no que se refere a corrupção do clero. Porém a maior crítica à Igreja da Idade Média, centrasse no abuso de seu poder, a opressão à liberdade religiosa, à liberdade de consciência, ao direito de escolher.
O movimento herético cátaro (séc. XII-XIV), é importante para se compreender os processos utilizados pela Igreja na repressão. A instauração da Inquisição que ocorre nesse período, perpetua-se até o século XIX.

Fontes:
Site: Wikkipedia
Blog: Memórias de Ebrael (descontinuado)
Livro: Os Cátaros e a Heresia Católica (Hernani G. Andrade)
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